Demorei bastante para escrever esse “post” porque tive uma enorme dificuldade em organizar meus pensamentos e impressões na cabeça de forma a expressar tudo o que vivenciei durante minha última visita ao Brasil no final do ano passado. Nunca sai de uma viagem tão perturbada, tão mexida. Foram 25 dias intensos e infinitas experiências. Um turbilhão de emoções que trouxeram alegria, tristeza, revolta, riso, choro e compaixão. Muita coisa que me deixou feliz e muita coisa que me deixou inquieta, buliu mesmo com a alma.
Recife está crescendo numa velocidade assustadora. A cidade virou um canteiro de obras! (Deus queira que todos os projeto sejam concluídos e que reste um pouco de verde e de mangue pra contar a historia!). O trânsito está pela hora da morte, sem exageros. É muito carro, muita gente, muito turista, e pouco, pouquíssimo planejamento. Tanto o setor público quanto o privado não estão preparados para lidar com o crescimento da cidade e muito menos com o crescimento do turismo. Faltam hotéis, vôos, infra-estrutura, capacitação, pessoal qualificado, plano de negócios e acima de tudo iniciativa.
Longe de mim fazer propaganda negativa da minha cidade. Sou Recifense roxa, amo minha terra e meu país e torço para que cresçamos fortes, mas isso não significa que devo fechar os olhos a tudo. A observação, o relato e, muitas vezes, a critica fazem parte do crescimento e acima de tudo fazem parte do jornalismo.
Ficamos hospedados em três dos melhores hotéis na orla de Boa Viagem e nenhum ofereceu serviço e hospedagens dignos do preço que cobram (diária mínima de R$350 + impostos e taxas). Mesmo assim os hotéis estiveram quase sempre lotados e nos tivemos dificuldades em fazer reservas. Quartos sujos, hotéis sem manutenção, funcionários que não sabe lidar com o turista, não conhecem o setor, a cidade, e não sabem contornar problemas e imprevistos. E, como atualmente, a procura é bem maior que a oferta, o setor não se esforça em melhorar. O que faz com que tudo isso seja perdoado é que Recife tem a sorte de ser mesmo um lugar abençoado por Deus. E existem poucos lugares tão maravilhosos no mundo com Pernambuco.
No famoso litoral Sul a situação é a mesma. Em Maracaípe, a pousada onde costumamos nos hospedar há 4 anos cobrou diária de R$550 por um chalé com o ar condicionado quebrado! Gente era uma pousada, não era hotel não! Alguns pedidos de desculpas e seis dias depois um técnico finalmente veio consertar o bendito ar. Seis dias para conseguir alguém para consertar o ar!
Em Maracaípe foram vários os absurdos. Fica difícil enumerar todos. Bugueiros dirigindo livremente na beira da água, tirando fino na criançada que brincava na areia. Encontramos muito lixo em toda a orla de Porto a Maracaípe, especialmente nos fins de semana, quando o movimento é maior. Eu conversei com vários nativos e com o pessoal que faz a limpeza da praia e fiquei chocada em saber que são somente 2 funcionários os responsáveis por toda a orla de Porto a Maracaípe. E que eles só passam uma vez por dia (a maré sobe e desce 4 vezes ao dia), e que por conta o difícil acesso, o caminhão de lixo não vai até o Pontal, que, conseqüentemente, fica imundo. Encontramos na praia fraldas descartável, garrafas de água sanitária, camisinha, lata de cerveja, etc.
O lixo e a falta de educação ambiental são realmente alguns dos maiores problemas que observamos nesta viagem ao Nordeste. Em Recife e em Jaboatão faltam lixeiras no transporte público. Vimos várias vezes passageiros jogando lixo pela janela.
Em Porto de Pedras, Alagoas (o famoso santuário do peixe boi), vimos uma tartaruga morta na beira mar engasgada com um saco plástico. Uma tristeza. No mesmo lugar, conversamos com pescadores que confessaram “odiar” os peixes-boi que circulam livremente por ali porque “eles se engancham na rede e atrapalham a pescaria.” Um pescador chegou a dizer que vários deles fazem “malvadezas” com os peixes-boi porque tem raiva dos bichos. Santa ignorância. Não sabem eles que a cidadezinha tem mais a ganhar com os peixes-bois e tartarugas vivos, que mortos. A situação do lixo ali é ainda pior. Não existe uma equipe de limpeza de praia por tratar-se de uma praia deserta, com apenas poucas casas e pousadas, mas de uma riqueza de fauna e flora inumerável. Os próprios pescadores disseram que a prefeitura não vai ali fazer limpeza ha mais de um ano.
Ainda no quesito meio ambiente, vamos falar de Suape. Gente do céu, o que esta acontecendo em Suape? Eu não consigo dormir pensando para onde vão os detritos de todas aquelas indústrias. Fiquei sabendo um grupo de turistas americanos que foi levado até Muro Alto por um bugueiro e que ficaram boquiabertos com a infeliz “vista” para Suape. Eles tiveram receio em nadar ali com medo de que a água estivesse poluídas pelos detritos das indústrias.
Não me levem a mal, não sou contra o progresso. Sei que Suape traz muita coisa boa para Pernambuco, como a geração de novos postos de trabalho e de oportunidades. O progresso é bom para o Estado, mas que Pernambuco está pagando um preço alto pelo seu progresso. E no caso de Suape, quem vai pagar o pato mais uma vez será o meio ambiente. Eu me pergunto o que será que tem escrito no estudo de impacto ambiental (EIA) dessas indústrias? Outra coisa que me inquieta é que vemos muitas reportagens de tom “positivo” e de “oba-oba” na cobertura de Suape e do progresso em geral em PE e pouquíssimas matérias que abordam a questão dos impactos ambientais e sociais, como o aumento da prostituição na área, trazidos pelas obras e indústrias. Soube que a Professora Isaltina Gomes da UFPE deu início a uma pesquisa sobre o assunto. Espero, sinceramente, que outras pesquisas sejam feitas, que as autoridades dem mais importância ao problema, que a imprensa de mais espaço e que cada um faça a sua parte sem esperar pelos outros ou pelo governo.
Respeitar o meio ambiente, só nos traz benefícios. Ganhamos mais turismo, ou seja mais dinheiro, mais qualidade de vida, mais saúde e mais bem-estar.
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